As frases que valem não são as primeiras

Tem aquela ansiedade da alma, que vai cutucando a gente lá no fundo e a gente não sabe bem porque nem pra que é que ela veio. Mas tem também aquela ansiedade desenhada com todas as formas, que a gente conhece bem e sabe do que se trata. Essa aí, Lexapro não resolve não.

Quando a ansiedade é essa desenhada é difícil arrancá-la do peito até que não se veja uma nova perspectiva sendo traçada, até que não sintamos que aquela tal ansia, com nome e forma esteja realmente se resolvendo.

Para mim, que sempre fui afeita a colocar a mão na massa,  ter de esperar pela decisão de outro alguém, ter que esperar alguém decidir a minha vida, a minha ansiedade, é bem pior do que qualquer coisa.

Mas quando as decisões escapam da sua mão, o que mais podemos fazer, a não ser encher o peito de paciência e aguardar que os passos da vida resolvam as coisas?

Isso tudo, eu suporto, mas não suporto machucar pessoas que eu gosto e nem mesmo que elas me entendam mal. No fim, de nada valem os parágrafos acima. Minha dor é mais pelas duas últimas frases do que pelo resto. Tudo se junta, mas no final, é isso que está tocando mais aqui no peito agora. Não suporto o mal julgamento, não suporto que se sintam machucados quando não quis jamais machucar.

“Não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis,becos-sem-saída. Nada é muito terrível. Só viver,não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir. Porque não estou fluindo.” Caio Fernando Abreu

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Pelas estradas

Não é que fosse triste ou que estivesse infeliz, mas aquelas últimas semanas lhe traziam dores fortes nas costas e uma carga pesada sobre os ombros. Aquele lugar, onde passava a maior parte do seu dia, era também onde se sentia mais longe de si mesmo. Tudo era muito diferente daquilo que ela sempre sonhara e ela sentia uma frustração por estar ali, sendo o mundo assim tão cheio de coisas interessantes para ela abraçar. Se sentia esgotada de se forçar a viver naquele espaço que, definitivamente, não era dela. Não era mesmo!

O mundo que ela havia imaginado era de palavras soltas e bonitas, de pessoas do bem, de gente de sorriso leve e grande, de histórias que deveriam ser contadas, de canções que precisavam ser ouvidas. Era um mundo em que ela se aproximaria do humano e lhe abriria os ouvidos e também o coração.

Mas ali, tinha de esconder talentos que havia descoberto em si mesma. Ao menos, as aulas de teatro lhe haviam servido de algo. Interpretava. Sentia, mas precisava ser forte para sustentar os tijolos que circundavam sua alma e lhe protegiam do mal. Tinha que ser assim, pelo menos por enquanto. Tinha que ser assim, pelo menos por enquanto.

Então, quando acordou e viu que o dia amanhecera com um sol brilhante e um céu azul, penteou os cabelos com cuidado, pendurou uma flor rosa na alça esquerda da regata – que é para ficar perto do coração – e entrou no carro disposta a enfeitar aquele dia. Afinal, se é preciso viver em um mundo hostil, que seja, ao menos, com cor e com graça.  Assim, pensou ela, será mais fácil passar dessa estrada para a outra. Sorriu por dentro, colocou sua música preferida e se convenceu que uma coisa nunca lhe faltava: fé.

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Realidade

Ela subiu as escadas do metrô, ansiosa. Ele segurava sua mão bem forte. Usavam luvas. Fazia frio. Em um segundo, tudo o que fora sonho, chegou-lhes aos olhos. A realidade era muito melhor.  E tinha um cheiro doce que nunca mais sentiram.  Andaram livres com uma alegria que mal cabia no peito, deixando toda a beleza invadir os olhos, lavar a alma. Olhavam-se naquele cenário. Era tudo verdade. Sim, era sim!

Paris! E qualquer palavra se faz pequena.

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Já é noite

Um coração se faz de dias
Cada novo sol te dá um novo
A dureza da vida te dá um maior
Ou te oferece um mais cruel

A escolha é sua
Você deve saber bem
A quem dar o maior de seus sentimentos
A quem dar somente um pedaço de si

Um pedaço de si nas mãos erradas
Pode se tornar um pedaço a menos dentro de você
Nunca se doe sem pensar

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Gota

E era tarde de domingo e chovia. Eles gostavam de estar juntos enquanto chovia porque podiam passar a tarde de pijamas com a luz apagada e podiam sonhar e fazer planos e contar piadas sem ter que sair de casa para nada.
Mas agora ela estava só. E a cama estava mais vazia do que antes.
Ela estava deitada. Não porque quisesse fazer planos, mas porque não tinha planos pra fazer, não tinha caminhos pra trilhar, não tinha onde ir e ainda chovia. A cama ficava de frente pra janela e ela via a chuva bater no vidro.
Uma única gota na janela. No meio de todas as outras, foi apenas uma. E ela lembrou daquele dia.
- Meu bem, está vendo aquela gota?
- Qual? Tem milhares delas na janela.
- Aquela ali, que corre para o lado direito. A maior. Está correndo, veja só.
- Sim, o que tem ela?
- Ela é sua
- Minha? Obrigada. Mas o que eu faço com uma gota de chuva?
- Eu dou ela pra você. Quero que você guarde. Mas não quero que você use.
- E como eu uso uma gota?
- Você já ouviu a voz do pranto, meu bem?
- Já.
- Ele traz a gota. Ela é a prova do meu amor por você. Você guarda, você a controla. Enquanto ela estiver guardada bem escondida, você nunca vai precisar usar. Ela é sua pra não ser usada.
Ela sorriu, achou engraçado.
Mas agora ela abrira a caixinha de música e a gota rolara.

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Adiante

Catarina finalmente achou que havia encontrado alguém pra vida toda, alguém com quem pudesse contar, que a levasse para jantar no sábado a noite e andasse de mãos dadas com ela. Mas o que Catarina não sabia é que Júlio tinha medo.

Ele lembrava do passado e tinha medo de esticar as mãos para outra mulher, estremecia ao pensar que podia sentir tudo de novo.

Ela agia ao contrário: Olhava para o passado e queria ter a felicidade de antes, se jogar de cabeça. Não somente esticar as mãos, mas segurar bem forte a do outro.

Um beijo uniu os dois, mas os corações batiam diferente. O olhar de um era medo, o do outro era esperança.

E então Catarina descobriu que segurar na mão do medo lhe tirava toda a esperança possível.

Guardou mais uma decepção no peito, encheu os olhos de coragem e não desistiu. Olhou para frente e viu uma longa rua, uma subida. Sentiu-se cansada. Sentou na beira da calçada, recuperou o ar e continuou a seguir.

Olhou para trás por um momento e percebeu o quanto já havia caminhado. Não enxergava lá atrás o começo de tudo. Estava muito distante.

Apontou o nariz para frente e sentiu que lá na frente caminhava alguém que tinha a esperança de óculos, assim como na música de Elis.

Não conseguia ver ainda a face do que lhe esperava, mas sabia que estava lá!

Calçou um sapato mais confortável e apenas seguiu.

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José Roberto, o moço da radiografia

José Roberto trabalhava de madrugada, saía de casa às onze da noite quando a maioria estava se recolhendo. Pegava o último ônibus e caminhava mais dois quarteirões até chegar ao hospital em que trabalhava. O turno ia da meia noite às seis.
Entrava no prédio do hospital, subia de elevador até o segundo andar e de lá ia a pé até o terceiro, onde só se chegava pelas escadas. Ao subir os degraus seguia para esquerda em direção ao setor de radiologia. Vestia o avental branco e se preparava para as noites que eram quase sempre lotadas de pacientes que precisam de radiografia. Havia noites que ele ficava tanto tempo no escuro da sala que mal se lembrava como era a luz do dia.

- Boa noite.
- Boa noite – respondeu a moça.
- A senhora pode, por favor, tirar o sutiã e a blusa e vestir esse avental?
- Sim.
- Pode usar aquele banheiro ali.
- Ok.

Ele achava estranho ter aquele tipo de conversa com as mulheres que chegavam lá. Porque na realidade ele nunca havia pedido isso para uma mulher que não fosse dentro da sala de radiologia, e nenhuma nunca havia feito isso por livre espontânea vontade quando estava com ele.
Ele sempre fora sozinho. Sempre!
Ele era calado, não tinha muitos amigos e nem muito o que fazer quando estava em casa. Por isso ansiava para chegar a hora de ir para o hospital e trocava as folgas com os outros técnicos de radiografia, porque nunca tinha compromisso no fim de semana.

- Pronto
- Ok, pode deitar de barriga para cima. O que lhe aconteceu?
- Não sei, acordei de madrugada com uma dor muito forte nas costas. O médico acha que pode ser apendicite – a mulher explicava enquanto ele ajeitava o corpo dela e a máquina.
- Certo. Não se mexa. Quando eu pedir você prende a respiração por uns segundos.
- Está bem.

Ela era magra, cabelos longos, liso, e tão pretos que brilhavam. Depois dela vieram mais três, uma baixinha de cabelos curtos e ruivos, uma senhora gordinha, e por último, uma negra bonita de cabelos armados e encaracolados.
Ele ficava intrigado. Olhava as radiografias, tentava entender como é que ele, justo ele, não conseguia conquistar a alma de uma mulher.

- Justo eu que vejo todos os dias como é que elas são por dentro – pensava.

Por vezes ficava horas olhando fixamente para as fotografias para saber se, de repente, em um instante de distração da alma feminina, a emissão eletromagnética pudesse ter flagrado uma aventura qualquer do pulsar dos sentimentos mais íntimos de uma mulher.
Mas era díficil. A alma era quase sempre tão esperta que não deixava se fotografar.
José Roberto não desistia. A radiografia era sua paixão. Paixão que tinha encontrado para satisfazer a falta que lhe fazia ter uma paixão de verdade.
Paixão que se apegava sempre que o hospital estava vazio. Assim ele podia imaginar como seria o exterior de tudo o que ele havia visto interiormente.

- Como será? E aproveitava para inventar lembranças de momentos que havia vivido com cada uma das mulheres que por lá passavam. Ficava em silêncio pensando, vendo o que poderia ser.
- José Roberto, tem uma paciente aguardando.
- Pode mandar entrar.
Dessa vez era uma loira, de quase quarenta.
- Prende a respiração quando eu pedir.

E ele entrava na sala escura para acionar os botões com a esperança de que a foto pudesse lhe mostrar algo mais. E depois tinha mais tempo pra pensar no que não fora, no que não era, no que nunca seria. No final, ele era assim: não via nada por dentro, nada por fora. Só um imenso vazio dentro de si por ver tanto e, afinal, não ver nada.
E então ele seguia sendo apenas o José Roberto, o moço da radiografia.

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